Reportagens

Uma janela para novos tempos

Crédito: L’Osservatore Romano


Desde que apareceu pela primeira vez na sacada da Basílica de São Pedro, o papa Francisco começou a trazer novidades para a Igreja. Como uma janela que se abre, olhou para o horizonte e desenvolveu uma reforma de comportamentos, atitudes e estruturas, trazendo novos ares a uma instituição milenar


Pedro Henrique Colatusso

 

 

No Brasil, segunda-feira de Carnaval. Em Roma, uma manhã chuvosa. 11 de fevereiro de 2013. Bento XVI estava em uma das salas do Vaticano reunido com cardeais marcando canonizações de novos santos, quando, em latim, fez o anúncio que surpreendeu o mundo.


Num primeiro momento, a renúncia poderia parecer uma decisão pautada pelas dificuldades pelas quais a Igreja passava no momento, mas, com o passar do tempo, passou a ser vista como uma abertura para que uma das instituições mais antigas da humanidade pudesse, de fato, se inserir na atualidade guiada por alguém como Francisco.


Com o passar das semanas, os cardeais foram chegando ao Vaticano para o Conclave - a reunião a portas fechadas que escolhe o sucessor de São Pedro, o primeiro papa, a quem, segundo os Evangelhos, Jesus Cristo confiou o cuidado da Igreja. Mas antes de entrarem na Capela Sistina, os cardeais se encontraram em reuniões mais informais para discutir quais perguntas precisariam ser respondidas pelo novo papa e qual o perfil do novo líder para respondê-las.


Ao aparecer pela primeira vez na janela da Basílica de São Pedro, pouco mais de um mês depois da renúncia de Ratzinger, Francisco começou a dar as respostas não somente com palavras, mas com gestos. Aí já se poderia notar os primeiros traços da personalidade de Bergoglio, o papa que veio do fim do mundo.

 

 

No dia do Conclave, Cardeais observam Bergoglio saindo da Capela Sistina como Francisco.

Diante deles, aparece com vestes simples e despojadas, sem pompas e luxo. 

Crédito: L’Osservatore Romano


A correria

Descobrimos que o prefeito da Secretaria para a Comunicação da Santa Sé vinha ao Brasil participar de um congresso de comunicação em Santa Catarina, do qual também participaríamos. Não dava para perder a oportunidade. Uma fala dele seria ideal para a nossa reportagem. Não bastasse vir ao Brasil, ele vinha também a Curitiba. Seu guia era daqui. Tínhamos que conseguir.

 

Aos poucos fomos descobrindo a agenda: encontro com o arcebispo, jantar com o prefeito, entrevistas, viagens. Depois de muitas tentativas conseguimos um horário com ele. Ele ia visitar uma emissora de TV católica e era a única oportunidade. Além da liberação para entrar, tínhamos outras preocupações. Ele vai nos atender? Ele não fala português, levamos tradutor? Onde vamos gravar lá dentro?


Era dia 14 de agosto. Chegamos cedo. Estava tudo fechado. Às 8 da manhã as portas abriram e fomos atrás de um lugar para gravar. Encontramos uma Capela que parecia ideal. Mas as horas foram passando e nada da comitiva chegar. Tínhamos prazo, pois a capela era também o cenário de um programa ao vivo prestes a entrar no ar. Mudança de planos.


Quando terminamos de montar a aparelhagem da entrevista em um estúdio ele chegou. E disposto a nos ajudar. O carioca Monsenhor Dario Edoardo Viganò se mudou com a família do Rio de Janeiro para a Itália ainda criança, e hoje é responsável pela comunicação do Vaticano, homem de confiança de Francisco. Nossa conversa começou e tomou vários rumos: a reforma no sistema de comunicação do Vaticano, a comunicação pessoal do papa. Viganò conta que Francisco, quando se dirigiu ao público presente na praça vaticana naquele 13 de março, realizou um diálogo ao dar um tom informal e de conversa a um dos momentos mais solenes e formais da Igreja Católica: a apresentação de um novo papa. Ao invés de uma citação bíblica ou uma saudação tradicional, ele simplesmente diz: “Irmãos e irmãs, boa noite. Vocês sabem que o dever do Conclave era dar um bispo a Roma. Parece que meus irmãos cardeais foram buscá-lo quase no fim do mundo, mas estamos aqui.”

 

Se formos notar bem, nos últimos quatro anos, aquele foi apenas o primeiro exemplo da peculiaridade na forma de comunicar do papa.


 

 

Na data em que Francisco apareceu pela primeira vez na janela da Basílica, aqui no Brasil o padre Marcial Maçaneiro estava no seu quarto dia de plantão na TV Globo, repartindo o horário com entradas no telejornal local de São Paulo, e em rede nacional, no Jornal Hoje. Sua missão era estar pronto quando a fumaça branca aparecesse na chaminé da Capela Sistina, para comentar e analisar os resultados. Quando agências internacionais começaram a divulgar que estava começando mais um escrutíneo – votação do conclave – e que eram grandes as possibilidades de que o nome do novo papa fosse anunciado, ele e a jornalista Sandra Annenberg foram para a câmera de modo que estivessem a postos assim que algum vestígio de fumaça aparecesse.

 

 

 

 

Irmãos e irmãs, boa noite! A primeira conversa de Francisco com o mundo.

Crédito: L’Osservatore Romano

 

Com o anúncio de que Bergoglio era o novo papa, a primeira reação foi de surpresa. “Eu não imaginava que ele fosse o eleito para bispo de Roma. Aliás, ele nem constava na lista dos favoritos e até nos arquivos da Globo era um dos últimos nomes para inserir as imagens”.


Quatro anos depois, conseguimos um horário para conversar. Sobre aquele dia corrido, padre Marcial concorda que os comentários feitos sobre Bergoglio na tarde daquele 13 de março foram certeiros – da simplicidade do tempo de bispo em Buenos Aires até a indicação de reforma com a escolha do nome Francisco. Reformas que, para ele, foram, mais do que um desejo individual do próprio papa, uma construção coletiva.


 


Um nome como ideal

A história mostra que Francisco de Assis nasceu Giovanni, assim como o Francisco de hoje nasceu Jorge. Na Idade Média, como o Francisco de outrora era filho de francesa, foi apelidado de francês – François, Francisco. Com o caminho seguido pelo jovem de Assis, o nome que surgiu como apelido se transformou em um ideal: o irmão da natureza, o amigo dos pobres.


Para o Francisco de hoje, o nome não veio de um apelido, mas de um sussurro. “Não se esqueça dos pobres”. A frase dita pelo cardeal brasileiro Dom Cláudio Hummes ao pé do ouvido do recém-eleito papa caiu como uma luva. Bergoglio, prestes a sair da lendária Capela Sistina vestido de branco, assumiu com o nome de Francisco a agenda do pontificado que estava para começar.


Teólogo e professor da PUC de São Paulo, Fernando Altemeyer destaca que o nome Francisco é muito forte, um programa de vida.

 

 

A reforma na Igreja


 

Saída do Conclave: do lado direito do papa, o cardeal brasileiro Claudio Hummes, responsável pela escolha do nome Francisco.

Crédito: L’Osservatore Romano



O Francisco da Idade Média ficou conhecido como reformador, assim como o de hoje está ficando. Mas um ponto importante é saber o que significa uma reforma na Igreja. Perguntamos isso ao padre Marcial Maçaneiro. “A reforma da Igreja não é apenas um evento luterano ou calvinista, mas é um evento eclesial. Ou seja, é da natureza da Igreja, como criatura da Trindade e comunidade histórica que ela se reforme. E a forma ideal da Igreja é o próprio Jesus. Então, ela se converte a Ele”.


Sabendo que uma reforma é um movimento natural da Igreja, fomos atrás de especialistas para saber que tipos de reformas o papa Francisco está implementando. Chegamos ao Departamento de Ciências da Religião da PUC de São Paulo, e lá falamos com o professor João Décio Passos. Ele acredita que as reformas de Francisco podem se resumir em três áreas principais: reforma do pensamento, reforma estrutural e reforma moral.


Pensamento – o pontificado de Francisco pode ser considerado como renovador em conceitos e posturas, convidando a todos para que também façam parte das reformas. Para o professor Passos, “há um novo clima na Igreja. Clima de liberdade de pensamento por parte dos teólogos e dos pastores, um convite ao protagonismo das Conferências Episcopais. Francisco já operou uma reforma de pensamento na Igreja referente à eclesiologia, ecologia, doutrina sobre a família, compreensão da tradição e da doutrina, regime capitalista, opção pelos pobres e a função do clero”. Um exemplo disso é a encíclica Laudato Si, sobre o cuidado da casa comum, na qual Francisco aborda a ecologia fazendo duras críticas às posturas que colaboram para o aquecimento global, e defende uma radical mudança de comportamento para a preservação do planeta.


Estrutural – segundo o professor Passos, ainda está em curso. Mas Francisco já fez reformas pontuais na Cúria Romana, como as modificações nos processos de nulidade matrimonial. Além disso, Francisco incentivou a mudança no sistema de comunicação do Vaticano, para que se adapte aos modelos atuais, com multimidialidade e interatividade.


Moral – a reforma moral se concretiza a partir das decisões de Francisco em adotar posturas severas em relação a abusos sexuais por parte de clérigos. Logo no ano seguinte à sua eleição, o papa criou uma comissão para investigar os casos de abuso sexual dentro da Igreja.

 


 

 

“Francisco quer uma Igreja em saída. Uma Igreja que deixe a própria comodidade e tenha a coragem de alcançar as periferias geográficas e existenciais. É preciso sair para os lugares onde há dor, sofrimento, miséria, opressão e injustiça.”

Vera Ivanise Bombonatto, doutora em Teologia Dogmática

 

 


 

Com mais de 70 anos, mas com uma pele de pêssego, a doutora em Teologia Dogmática, Vera Ivanise Bombonatto é religiosa da Congregação das Filhas de São Paulo e acredita que as reformas que vem sendo colocadas em prática por Francisco dizem respeito, em primeiro lugar, a dois aspectos principais: a missão e a organização - missão de testemunhar a pessoa de Cristo no contexto atual da sociedade e organização que deve estar a serviço do primeiro aspecto. “Francisco quer uma Igreja em saída. Uma Igreja que deixe a própria comodidade e tenha a coragem de alcançar as periferias geográficas e existenciais. É preciso sair para os lugares onde há dor, sofrimento, miséria, opressão e injustiça”.


Para a religiosa, a preocupação do papa também pode ser desdobrada em aspectos como a reforma das estruturas eclesiais, o resgate da vivência da dimensão comunitária e missionária da vida cristã, a realização de uma conversão pastoral e ecológica, além de um rompimento com a autorreferencialidade eclesial. “A Igreja deve ser estruturada não a partir e em função de si, mas a partir e em função de sua missão de ser sinal e instrumento de Deus para humanidade sofredora”, completa.

 

O amigo jesuíta

Amigo pessoal de Bergoglio, o jesuíta padre Luis González Quevedo, mais conhecido como padre Quevedinho, teve o primeiro contato com o futuro papa em julho de 1970, quando foi a Buenos Aires participar de uma ordenação diaconal. Na ocasião, se hospedou no Colégio Máximo, em San Miguel, município próximo da capital argentina, onde morava o padre Jorge Mario. “Uma noite ficamos conversando e houve muita sintonia entre nós. Contou-me que tinha sido indicado para ser Mestre de Noviços, mas antes tinha que fazer a última etapa da formação dos jesuítas, e que faria na Espanha. Então dei a ele o endereço de minha família em Madrid, com a qual fez amizade”, recorda Quevedinho.


O jesuíta lembra que naquela noite, entre outros assuntos, falaram das discussões entre conservadores e progressistas, e Bergoglio disse que vinha de uma família conservadora. Falaram também sobre os problemas de saúde, vocação religiosa e Santo Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus.


Mais de 40 anos depois, Quevedinho vê Bergoglio como papa e acredita que boa parte das reformas propostas por Francisco podem ser notadas nos próprios pronunciamentos, exortações e discursos à Cúria Romana, por exemplo, quando apontou uma série de doenças da Cúria e um catálogo das virtudes necessárias para quem nela presta serviço. Para ele, a reforma também pode ser notada na organização do Instituto para as Obras de Religião, o IOR - mais conhecido como Banco do Vaticano; na criação da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, para encarar com firmeza o problema dos abusos sexuais cometidos por membros do clero; na reorganização da Secretaria para a Comunicação, com o objetivo de modernizar e atualizar a comunicação da Igreja; na reforma do processo para as declarações de nulidade matrimoniais; e na criação de dois novos Dicastérios, que são departamentos do governo da Igreja: um para os leigos, a família e a vida, e outro para o serviço do desenvolvimento humano integral. “Para uns, Francisco é um papa revolucionário. Para outros, ele ainda não começou as mudanças que se esperavam dele. Eu creio que o papa quer, sinceramente, tornar a Igreja mais evangélica, mais semelhante a Jesus”, completa Quevedinho.

 

No entanto, para o velho amigo do papa, a revolução de Francisco nada mais é do que uma continuidade dos passos dados pela Igreja a partir do Concílio Vaticano II, na década de 1960.


“Francisco só pode ser chamado de revolucionário por quem não conhece o Evangelho, nem a tradição da Igreja, não aceita o Concílio Vaticano II ou a Conferência de Aparecida, na qual Bergoglio presidiu a comissão de redação do documento final. Francisco se considera um continuador dos papas anteriores, aos quais cita com frequência.”

 
 
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