Reportagens

O papa dos jovens

Crédito: L’Osservatore Romano

Crédito: L’Osservatore Romano

 

A conexão de Francisco com os jovens chama a atenção. O papa gosta de estar perto dos jovens, ouvi-los, saber o que pensam e o que fazem.  Nas duas jornadas mundiais da Juventude que participou, Francisco levou multidões para ainda mais perto dele


Andrey Princival Gabardo

 

Definitivamente, estar perto do papa, não é para qualquer um, certo? E se você tivesse a chance de estar frente a frente com Francisco, o que faria? O que falaria para ele? Quais emoções sentiria? A jovem Ana Carolina Santos Cruz, de 21 anos de idade, teve essa experiência, em agosto de 2015. E mais, além de ver e conversar com o papa por alguns instantes, ela conseguiu arrancar uma gargalhada dele que gerou grande repercussão.


Natural de Osasco, em São Paulo, Ana começou a se envolver com movimentos da Igreja desde criança, foi coroinha e integrante do grupo de Infância Missionária. Quando se mudou para a capital, ainda pequena, Ana foi convidada a participar do Movimento Eucarístico Jovem, do qual viria a ser coordenadora anos mais tarde. Ana também participou da coordenação do movimento, na Arquidiocese de São Paulo, em 2014.


Em 2015, para comemorar os 100 anos de fundação do Movimento Eucarístico Jovem, o padre responsável pelo Movimento no Brasil, um jesuíta, decidiu organizar uma viagem até Roma. Por pertencerem à mesma ordem, os jesuítas, foi mais fácil para que o padre conseguisse que Francisco recebesse tanto ele, como os integrantes do Movimento, do qual Ana fazia parte. Além dela, cerca de dois mil jovens de outros lugares do mundo participaram dessa audiência com o papa. “Quando soubemos que todos os dois mil jovens estariam presentes nessa audiência gritamos, choramos e comemoramos muito”, afirma Ana.


Ela conta que foi o próprio papa que teve a ideia de escolher seis jovens para fazer perguntas para ele no encontro. “Ele escolheu jovens da Indonésia, Taiwan, Itália, França, Argentina e Brasil. E eu fui escolhida pelo meu coordenador, para ser a brasileira que faria a pergunta ao papa. O meu coordenador marcou um encontro comigo e me perguntou qual pergunta eu faria ao papa se tivesse a oportunidade de falar com ele. Eu disse que ia perguntar qual o maior desafio que ele enfrentou como papa. Então ele me disse: Essa pergunta você vai fazer pessoalmente para o papa”. Ela afirma que demorou um tempo para acreditar no que tinha acabado de ouvir.


No dia do encontro, Ana afirma que assessores do papa fizeram para os jovens que iriam fazer perguntas ao papa, várias recomendações. “O assessor disse: vocês vão fazer a pergunta para ele e depois vão cumprimentá-lo, mas é só para pegar na mão dele. E todos nós concordamos” afirmou Ana. “Quando eu ouvi o meu nome ser anunciado, eu comecei a chorar e ficava perguntando a mim mesma: o que é que eu estou fazendo aqui?”. Ela conta que subiu as escadas em direção ao microfone incrédula, fez a pergunta e seguiu para cumprimentar o papa.


Depois de presentear o papa com um símbolo do Movimento Jovem, e segurando a bandeira do Brasil, quebrando os protocolos recomendados, o papa a questiona sobre o fato de ser brasileira. “Quando eu respondi que era brasileira ele me disse: então eu vou te fazer uma pergunta: Eu fiquei com medo, porque achei que era uma pergunta difícil. E ele me perguntou: quem é melhor? Pelé ou Maradona? Então olhei para ele e comecei a dar risada e disse: é lógico que é o Pelé e começamos a rir muito nessa hora. Depois, eu estendi o braço e dei um abraço nele, envolvendo a bandeira do Brasil nele também. Daí ele falou no meu ouvido para falar o motivo que a gente deu risada, para que todos que estivessem ali entendessem. Quando eu fui até o microfone, só o pessoal do Brasil e da Argentina entendeu, porque tinham 33 países no encontro, mas daí eu levantei a bandeira e comemorei” completa, visivelmente alegre e emocionada, ao lembrar-se do fato.

 

 

A conexão com a juventude


A conexão de Francisco com os jovens realmente chama a atenção. A Jornada Mundial da Juventude realizada em Copacabana, no Rio de Janeiro em 2013, reuniu cerca de 3 milhões de pessoas, de acordo com dados da organização do evento. Jovens de todas as idades participaram, cantando e rezando junto com o papa. 


A pessoa responsável por intermediar as relações do Vaticano com o Rio de Janeiro, durante a jornada foi o padre Anísio José Schwirkowski, que atualmente pertence a uma paróquia de Curitiba. Ele conta que começou a trabalhar na organização da jornada no Brasil em 2005. “Quando eu fui transferido para o Brasil em 2012, eu vim direto para o comitê organizador da jornada e o setor do qual eu era responsável era o internacional”. Padre Anísio teve a oportunidade de encontrar com o papa Francisco em dois momentos, durante a Jornada Mundial da Juventude. “O primeiro foi quando os diretores do comitê foram lá cumprimentar ele, e o segundo momento quando ele foi abençoar uma estátua produzida por moradores na avenida atlântica e fui o cicerone apresentando o papa às pessoas que estavam ali”. O padre afirma que além desses dois momentos, em que esteve frente a frente com o papa, também estava na praça São Pedro, quando Francisco foi eleito, e considera todas as vezes que esteve com o papa como emoções indescritíveis.

 

 

 

 

 

Sobre a conexão do papa Francisco com os jovens, padre Anísio afirma que o papa pede para que os jovens não fiquem acomodados. “Durante um discurso, o papa pediu aos jovens para que saiam do sofá e ajudem na transformação do mundo. Porque as redes, o acesso mundial a internet, que é uma coisa excelente pode acomodar e deixar as pessoas fechadas, principalmente o jovem”, afirma o religioso.


O responsável por fazer a logo da Jornada Mundial da Juventude, em 2013 no Rio de Janeiro, foi o designer gráfico e social media Gustavo Huguenin. “Eu ganhei o concurso do símbolo da Jornada, mas mesmo antes disso, eu sempre sonhei em ter a oportunidade de encontrar com o papa. E eu fiquei muito feliz de ter tido essa experiência. Eu pude conhecer Francisco durante um encontro privado que ele teve com o comitê organizador. Eu pude falar com papa, entreguei um presente em mãos: uma logo da Jornada em acrílico. O papa me parabenizou. Disse que a peça era muito criativa, me agradeceu, eu agradeci a ele e disse que aquela peça ali representava muito, porque ali eu representei o coração da juventude, que estava disposta a acolher Jesus. Foi um encontro, rápido, eu estava nervoso, mas me senti muito privilegiado”, afirma.


 

Durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro em 2013, o papamóvel ficou cercado por jovens do mundo inteiro.  Crédito: L’Osservatore Romano

Durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro em 2013, o papamóvel ficou cercado por jovens do mundo inteiro.

Crédito: L’Osservatore Romano  



Sobre a presença nas redes sociais, Gustavo afirma que o papa combina muito com as redes, com a linguagem da internet. “O estilo do papa em ser mais informal, mais espontâneo reflete muito do que é a rede social, onde as pessoas são mais divertidas, mais espontâneas. O papa também como latino-americano tem esse nosso sentimento de ser mais comunitário. Eu acredito que essa identificação nas redes aconteça por conta disso. E o papa gosta de estar no meio do povo, no meio dos jovens. Quando essas ocasiões acontecem dá pra ver que ele está feliz de estar ali”. Como social media, Gustavo afirma que uns dos maiores sucessos nas redes, foram postagens do papa Francisco. “Mensagens espontâneas, que as pessoas não esperavam, como um vídeo com uma mensagem de Natal em linguagem de sinais fez o maior sucesso”, exemplifica.

 

 

 

 

Em 2016 a jornada Mundial da Juventude aconteceu em Cracóvia, na Polônia. Segundo dados da organização, 2 milhões de fiéis estiveram presentes no evento. E um desses 2 milhões foi o jovem brasileiro, de Curitiba, Gabriel Sawaf, de 22 anos de idade. Sua fé e vontade de participar da Jornada Mundial da Juventude era tamanha, que ele chegou a vender doces para conseguir dinheiro, para participar do evento. “Foi uma experiência inigualável, enriquecedora. Estar a poucos metros do papa, sentir toda aquela energia, ver várias pessoas do mundo com a mesma fé que você, com as mesmas tradições, embora de formas diferentes, cantando até as mesmas músicas é algo que traz um sentimento inexplicável ao seu coração”.


Gabriel acredita que com Francisco os jovens voltaram a se sentir valorizados, tendo sua importância reconhecida na sociedade. “Eu percebo que há uma afinidade muito grande. Acho que isto vem desde São João Paulo II e, com o seu falecimento, os jovens perderam um pouco daquele que foi o seu maior referencial e não encontraram isto em Bento XVI – não criticando o emérito pontífice -. Com o jeito acolhedor e carismático de Francisco, típico dos Jesuítas, o jovem voltou a se sentir identificado, ainda mais quando o papa enaltece a importância do jovem na sociedade como um todo”. Gabriel complementa: “Nas duas Jornadas feitas sobre o pontificado de Francisco pôde-se ver como o jovem tem muito amor com a figura do papa”.


Sobre a conexão espiritual, mas também virtual de Francisco com os fiéis, Gabriel acredita que a divulgação do pontificado e as mensagens expressas pelo papa nas redes sociais são de extrema importância, pois conectam o papa com o mundo, onde quer que as pessoas estejam, elas podem acessar de forma mais rápida e eficaz, informações sobre o Papa, afirma ele. Gabriel lembra que muitos seguidores do Papa, não necessariamente são católicos: “Também há a questão que muitas pessoas não católicas ou que não possuem nenhuma religião gostam muito do papa Francisco e acabam seguindo ele nas redes sociais, assim, a evangelização atinge o seu ideal, pois não fica se comunicando apenas com que já tem a mesma fé que o papa”, finaliza. 


 

A relação com a juventude: proximidade nos gestos e palavras. Crédito: L’Osservatore Romano

 

A relação com a juventude: proximidade nos gestos e palavras.

Crédito: L’Osservatore Romano


A jornalista Fabíola Goulart, de 32 anos, pode dizer que esteve mais próxima do papa, do que a maioria das pessoas em geral. Ela cobriu a eleição do papa, acompanhou a sua trajetória e também esteve nas Jornadas Mundiais da Juventude no Rio de Janeiro em 2013 e na Cracóvia em 2016.


Fabíola revela um fato surpreende sobre o papa: pessoalmente ele é avesso às novas tecnologias. Mas apesar disso, avalia ela, o papa consegue fazer comunicação de maneira eficaz. Ela diz que em seus discursos públicos, apesar de o papa falar para multidões, sente como se ele estivesse falando diretamente para cada um que o ouve. “Acredito que o papa consegue isso por estar e se fazer presente. Ele explica Cristo na sua presença. Ele comunica através do testemunho e é isso que ele pede pra nós em diversas mensagens. Ele é forte no ambiente digital porque as pessoas veem nele uma autenticidade. Em um mundo que é tão plural, que tanto se fala, que tanto se faz de conta, alguém com uma autenticidade tão grande, fascina. E isso atrai o mundo, atrai Católicos e não Católicos”, argumenta.


A jornalista afirma que acompanhou ao longo do tempo as transformações de Bergoglio em Francisco. “É muito bonito ver como ele se tornou papa. Porque ele não nasceu papa. Antes de ser papa, ele não era alguém da mídia, em Buenos Aires. Ele fugia da mídia, não gostava de dar entrevista”. Segundo Fabíola, o papa se transformou porque sabia que era isso que precisava ser feito. “Eu conversei com um grande amigo dele em Buenos Aires, que dizia isso pra mim: como ele se transformou. Ele sabia que o mundo precisava dessa comunicação e ele se esforçou ao máximo e ainda se esforça. É algo que ele pensa: eu preciso fazer isso, porque o mundo precisa dessa mensagem. O mundo precisa se sentir amado, o mundo precisa saber que eu estou ali, que Jesus está ali, que Deus está ali.”

 

 

 

O padre Marcial Maçaneiro, que faz parte da Congregação dos sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, acredita que o fato do papa Francisco estar presente nas redes sociais é uma boa forma do papa se comunicar com os jovens, justamente com os outros meios de comunicação, como a televisão e documentos impressos. O padre  afirma que o papa distingue tipos de discurso. “Quando ele faz um documento breve, uma homilia ou uma visita ele tem um discurso mais controlado, que formará um acervo, uma base de dados histórica. Já esse cuidado não é o mesmo  para twittes e mensagens rápidas, onde ele até polemiza, usa linguagem coloquial, permite ser mal entendido, no sentindo de que ele não quer ter um controle ideológico. Nos discursos oficiais ele fala sobre. Nos discursos midiáticos ele fala com. E não é que ele mude as convicções. O que muda é o jeito de falar”. O padre afirma que o papa quer se fazer acessível, ser ouvido, quer ter interlocução e que se coloca no pé de igualdade com os demais cristãos. Ele diz que assim, muitos se sentem parecidos com Francisco, entre crentes e não crentes, pessoas de outras religiões se sentem próximas do papa.

 

 

 

 

Além de católicos, muitas pessoas de outras religiões admiram o papa Francisco.  Débora Batista tem 24 anos de idade é cristã protestante. Ela conta que sabia da existência do perfil do Papa no Twitter, mas afirma que nem imaginava que o Papa poderia ter uma conta também no Instagram. Diferentemente dos católicos que consideram Francisco como um homem santo, Débora considera o papa como um homem comum como qualquer outro, mas reconhece a generosidade e bondade de Francisco. “Ao que me parece, ele tem cumprido seu papel como cristão no quesito da caridade e amor ao próximo. Não o conheço a fundo, mas aparenta ser um homem que se preocupa com os necessitados e com o próximo de modo geral e isso faz a diferença no mundo”.


Débora afirma que o posicionamento de Francisco em relação a assuntos que estão em evidência, como homossexualidade, aborto, divórcio chama a atenção da mídia, onde na maioria das vezes, sua imagem é positiva. “A mídia faz o que convém com a imagem de alguém, ou seja, até então o chamado papa do povo tem agradado, mas a qualquer momento, se o seu posicionamento mudar ou deixar de agradar em algumas questões, o papa pode ser excluído do hall de queridos da mídia”, garante. 


Ela vê como positivo o fato de Francisco estar nas redes sociais e acredita que isso ajuda inclusive a mídia a entender os posicionamentos do papa. “As redes sociais com certeza o torna próximo dos fiéis e o ajuda, como líder da Igreja Católica a se comunicar com os católicos, admiradores e pessoas do mundo todo que o observam. Isso facilita até mesmo o papel da imprensa em entender os pensamentos e conhecer o papa Francisco. Estar atualizado com a evolução diária das diversas formas de comunicação é fundamental”, garante ela.

 

A proximidade com a juventude: para 2018, Francisco convocou um Sínodo sobre o assunto, que está sendo pautado com a ajuda dos jovens do mundo inteiro. Crédito: L’Osservatore Romano

 A proximidade com a juventude: para 2018, Francisco convocou um Sínodo sobre o assunto, que está sendo pautado com a ajuda dos jovens do mundo inteiro.

Crédito: L’Osservatore Romano  


Mais próximo do que se possa imaginar

 

Para a realização de nossa reportagem multimídia sobre o papa Francisco, tentamos, dos mais variados meios possíveis conseguir uma entrevista, um vídeo, algo que fosse do próprio papa Francisco. Afinal de contas, após conversarmos com tantas pessoas sobre ele, não seria nada mal se conseguíssemos conversar com ele diretamente. Seria muita ousadia de nossa parte? Talvez.


Foram muitos caminhos percorridos, até que conseguimos a intermediação com o papa, por meio de um padre amigo pessoal de Francisco, que terá aqui sua identidade preservada. Solicitando uma entrevista por vídeo, por e-mail ou por qualquer outro modo, o padre encaminhou o e-mail ao papa que respondeu, de forma muito carinhosa, que devido a seus compromissos não poderia contribuir para a realização deste trabalho, mas que havia ficado feliz e que estava rezando por nós.


É importante enaltecer o fato de que o papa Francisco, o papa do mundo, o papa do povo, o papa das redes, o papa dos jovens, respondeu gentilmente à nossa equipe e agora sabe de nossa existência, de nossa grande reportagem e de como ele foi inspirador para que tudo isso pudesse acontecer.


Abaixo, o e-mail do papa, dirigido ao seu amigo padre, falando sobre a reportagem Redes de Francisco.

 

"Gracias por tu correo. Por favor, decile a estos jòvenes que me alegra que trabajen com tanta ilusiòn. Em estos meses no me es posible acceder a su pedido dada la abundancia de trabajo. Que sigan adelante. Rezo por ellos y tambièn por vos. Que Jesùs te bendiga y la Virgen Santa te cuide. Fraternalmente."

Francisco

 

 

Na tradução para a língua portuguesa:


"Obrigado pelo seu e-mail. Por favor, diga a estes jovens que me alegra que trabalhem com tanto entusiasmo. Nestes meses não me é possível atender ao seu pedido dada a abundância de trabalho. Que sigam adiante. Rezo por eles e também por você. Que Jesus te abençoe e a Virgem Santa te cuide. Fraternalmente."

Francisco

 

 

 

 
 
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