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O mundo de Francisco

Crédito: L’Osservatore Romano

Crédito: L’Osservatore Romano


Além de ser um líder religioso que direciona as aspirações espirituais dos fiéis, Francisco também é o Chefe de Estado do Vaticano e possui responsabilidades diplomáticas


Vinícius Costa Pinto


Homilias diárias, discursos para milhões de fiéis ao redor do globo, andar no papamóvel — eventualmente quebrar o protocolo de segurança e descer para abraçar uma criança —, rezar por todos. Fazer as obrigações de um papa. Além disto tudo, Francisco também é o Chefe de Estado do Vaticano.  

 


Muito além do papamóvel: Francisco lidera uma cidade-estado que mantém relações diplomáticas com mais 127 países além de organizações como a ONU. Crédito: Shutterstock

Muito além do papamóvel: Francisco lidera uma cidade-estado que mantém relações diplomáticas com mais 127 países além de organizações como a ONU.

Crédito: L’Osservatore Romano

 

 

O Vaticano é uma cidade-estado desde 1929. Faz parte da Santa Sé — representante máxima da Igreja Católica Apostólica Romana — que é administrada pela Cúria Romana, órgão responsável por todas as Congregações, pelas Secretarias, pelos Pontifícios Conselhos e pelos Dicastérios. Reconhecido pelo então Reino da Itália por meio do Tratado de Latrão. Assinado no dia 11 de fevereiro de 1929 entre o cardeal Pietro Gasparri e o ditador italiano Benito Mussolini, dando autonomia para a Santa Sé e o Vaticano. O acordo foi revisado em 1984.


Hoje os documentos que formam o Tratado de Latrão estão disponíveis no site do Vaticano. Assim como o Tratado de Latrão de 1929 e o revisado de 1984.


 

Cidades deste tipo são pequenos países autossuficientes, a exemplo de Mônaco, que tem governos próprios e autônomos em relação aos outros. Situa-se dentro da capital italiana, Roma. É um governo teocrático-eletivo, ou seja, seu líder é uma entidade religiosa eleita, neste caso o bispo de Roma, papa Francisco. Também possui um secretário de Estado que é o cardeal italiano Pietro Parolin, nomeado por Francisco em 31 de agosto de 2013.

 

 

Mediador

Impossível evitar comparações. Para a professora Edile Maria Fracaro Rodrigues, de Ensino Religioso da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Bento XVI apresentava um perfil acadêmico, enquanto Francisco tem um caráter de acessibilidade e acolhimento. Para o Padre Anísio José Schwirkowski, ele é um “farol”.  Como líder mundial, Francisco realiza a chamada Igreja em Saída: “Em um mundo que é um hospital de campanha, de guerra. Capaz de acolher, de ser misericordioso. De se preocupar com aquilo que é mais essencial para as pessoas de hoje. Em falar uma linguagem que seja compreendida. Uma igreja voltada para o outro, para fora, para a missão e não tanto para a conservação interna”, relembra o padre Alexandre Awi Mello.

 


“De se preocupar com aquilo que é mais essencial para as pessoas de hoje. Em falar uma linguagem que seja compreendida”

Padre Alexandre Awi Mello

 


Depois da Segunda Guerra Mundial o mundo foi divido em dois blocos. O capitalista, representado pelos Estados Unidos (EUA) e o comunista, representado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Cada bloco mantinha países alinhados de acordo com seu posicionamento. Um destes países era Cuba. Em 1959, liderados por Ernesto “Che” Guevara e Fidel Castro, um grupo conseguiu tirar Fulgencio Batista do poder — alinhado aos Estados Unidos — e instaurar um regime socialista simpático à União Soviética. Por causa disso, sofreu embargos econômicos dos EUA desde 1962. Em 2014, o então presidente dos EUA, Barack Obama com Raul Castro, irmão de Fidel, e sucessor do regime em Cuba, iniciaram um diálogo para o fim dos embargos econômicos e posteriores aberturas diplomáticas. Tendo como a figura de mediador para esta série de conversas, papa Francisco. As conversações estão congeladas devido às políticas do governo Trump.

 

Visita a Auschwitz, em julho de 2016. Crédito: Shutterstock

Visita a Auschwitz, em julho de 2016.

Crédito: Shutterstock

 

 

Também visitar lugares do passado cujas marcas ainda não foram esquecidas. Como Auschwitz, rede de campos de concentração na Polônia no qual morreram cerca de 1,3 milhões de pessoas perseguidas pelo Nazismo.


Em 2016, Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, assina um acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Novamente, Francisco teve papel fundamental para a mediação com seu discurso pela paz no mundo.


Assim que soube do número de mortes resultado de rebeliões e brigas entre organizações em penitenciárias brasileiras, papa Francisco se pronunciou sobre os 130 mortos no primeiro dia da crise no início do ano de 2017, além de rezar por eles.

 

 

 

 

 

Santo de casa

Todo jornal tem textos pré-produzidos de acontecimentos que certamente ocorrerão. Os prováveis campeões de um torneio esportivo. Obituários de pessoas conhecidas ou famosas. Anúncio dos resultados eleitorais. Tudo isto já é preparado de antemão por redatores para quando os acontecimentos ou resultados forem apresentados.Qual não foi a surpresa dos jornais quando tiveram de sacar de suas gavetas o relatório papal de Jorge Mario Bergoglio? Afinal de contas, ele era um dos últimos cogitados que aguardavam na fila de espera para o assumir o Pontificado.


De acordo com os dados, os principais candidatos, respectivamente, eram o cardeal italiano, Angelo Scola, arcebispo de Milão; o arcebispo brasileiro, Odilo Pedro Scherer; e o canadense Marc Ouellet.


Em sua terra natal, Argentina, os dois maiores periódicos fizeram o mesmo. O jornal La Nácion apresentou o cardeal Bergoglio como uma mudança para a Igreja Católica. Principalmente por ser o primeiro latino-americano, uma possível ruptura com o eurocentrismo católico. Depois, por ser de uma denominação jesuíta. Por fim, pela escolha de seu nome como papa: Francisco. Homenageava o santo nascido em Assis, que recusou uma vida confortável em meio aos prósperos recursos de seu pai comerciante. E fora pregar o Evangelho. Inclusive para pássaros.


A jornalista argentina Elisabetta Piqué, correspondente internacional do La Nácion em Roma e também vaticanista. Autora do livro biográfico, “Francisco — Vida e Revolução” de 2014, livro no qual traz algumas considerações sobre a abertura da Igreja para o novo século. Conhece o papa desde 2001 na época em que ainda era o “padre Jorge”, e acompanhou o conclave de Bergoglio. Além de ter dois filhos batizados por ele.

 

Voo papal para a Polônia no ano passado, para a Jornada Mundial da Juventude, em 2016.  Crédito: Arquivo pessoal de Elisabetta Piqué

Voo papal para a Jornada Mundial da Juventude da Polônia, em 2016.

Crédito: Arquivo pessoal de Elisabetta Piqué

 


“Um papa reformista, que quer mudar essa visão da Igreja para os poucos e perfeitos, mas uma Igreja pobre para os pobres”

Elisabetta Piqué

 


 

Para Piqué, “padre Jorge” é uma mudança na Igreja Católica porque retoma o Evangelho. E esta mudança é a Igreja voltada aos pobres: “a que ele pede para percorrer as periferias, estar mais próximo dos pobres e do último, e curar o ferido hoje. Quer uma Igreja que não venha a condenar, mas abrir, que venha acompanhar, especialmente os mais pobres, os que sofrem.” Para uma vaticanista que cobriu o falecimento de João Paulo II, a eleição de Bento XVI, sua renúncia, e a fumaça branca de Bergoglio, ela afirma que: “certamente é um papa reformista, que quer mudar essa visão da Igreja para os poucos e perfeitos, e igrejas ricas, mas uma Igreja pobre para os pobres, que nem sempre se encaixam bem” conclui a vaticanista.


Outro jornal diário de importância nacional a anunciar o conclave foi o Clarín. Este considerado como um dos paladinos da direita argentina, apresentou a fumaça branca de bergoglio de maneira mais tímida. Relatando o conclave com um breve histórico do novo pontífice.


Ainda na época de provincial em Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio teve importante papel durante a Ditadura Militar Argentina. Criando esquemas de fuga para perseguidos políticos ou intervendo para a libertação dos “curas villeros”: algo como os “padres de favela”, que mantinham relação com o braço esquerdo da Igreja Católica como a Teologia da Libertação e o Movimento dos Padres da América Latina.


Atualmente os curas villeros lutam contra o “paco”, uma mistura preparada com os restos de pasta base da cocaína, bicarbonato de sódio e querosene. Em 2010 já tinha sido consumido por mais de 120 mil pessoas na Argentina, e pelo custo baixo, um papelote custa cerca de R$ 2,75 é considerada uma droga dos pobres, assim como o crack no Brasil.

 


 

 

 

“É uma voz dissonante no contexto atual”

María Elena Barral 


 


Para a historiadora argentina, María Elena Barral, a atuação dos curas villeros é resultado de “uma adaptação particular no perfil da Teologia da Libertação na Argentina”, que era uma linha interna conhecida como “Teologia do Povo" ou da Cultura. Era situada num tempo histórico preciso e em sociedades atravessadas por conflitos sociais e, como tal, pensavam na fé e na experiência religiosa popular. Os receptores da pastoral que acompanham esta formulação teológica não eram indivíduos isolados, mas faziam parte de grupos pertencentes a uma determinada cultura e inscritos em uma certa história”, ressalta Barral. Sobre a atuação de papa Francisco como líder mundial, acredita que suas principais questões figuram com os jovens, como por exemplo quando veio ao Brasil e pediu que os jovens “fizessem barulho”. Mas ainda tem algumas ressalvas, “É uma voz dissonante no contexto atual e é por isso que eu valorizo isso. Não parece promover muita mudança dentro da Igreja no sentido de uma liderança mais colegiada, do sacerdócio das mulheres, do aborto, do casamento "igualitário". Aqui é dito que promove um episcopado de ovelhas com um cheiro de ovelha’”. Finaliza.

 


Bergoglio e a Igreja do século XXI

Viagens frequentes a países que sofreram com guerra e miséria; a conversa com líderes de Al-Ahzar no Egito; a principal Meca e centro intelectual do islamismo no Mundo; até negociações entre governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC); e trabalho diplomático em 2014 para as negociações entre Estados Unidos e Cuba. Além de ainda como Cardeal em Buenos Aires, seus desencontros com a política Kirchner e seus atuais problemas com o governo neoliberal de Mauricio Macri.


“Um rebelde”, para o teólogo Fernando Altemeyer Junior, papa Francisco é um rebelde midiático, cujas atitudes que tenham um teor de política maior não podem ser vistas na grande imprensa.

 


 

Como Chefe de Estado do Vaticano, papa Francisco demonstra uma abertura da Igreja Católica para a sociedade do século XXI. Exemplo significativo disto foi a criação do Dicastério para Leigos, a Família e a Vida. Que tem como objetivo unir o antigo Conselho para os Leigos e o antigo Conselho para a Família. Oferecer apoio às questões referentes da vida leiga, desde o nascimento até a morte natural. Matrimônios, a juventude e encontros familiares na sociedade civil do século XXI. Seu prefeito é o Cardeal Kevin Farrel e o secretário é o padre brasileiro Alexandre Awi Mello, que conheceu Bergoglio durante a Conferência de Aparecida em 2007, e também esteve ao lado dele, já como papa, em 2013 na Jornada Mundial da Juventude.


Para o secretário do Dicastério, padre Alexandre Awi Mello, a intenção do Dicastério é dar uma importância maior para os temas referentes aos aspectos abordados pela vida pastoral. Padre Mello acredita que estas atitudes estão relacionadas com a Igreja em Saída, e o Concílio Vaticano II.

 

 

 

 
 
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