Reportagens

Da Argentina para o mundo

 

Crédito: L'Osservatore Romano

 

Da vida comum na periferia do mundo para o trono de São Pedro: a ascendência de Jorge Mario Bergoglio


Pedro Henrique Colatusso

Viviani Moura

Dezembro em Buenos Aires costuma ser quente. As temperaturas ficam em média a 28 graus, podendo passar facilmente dos 30. Em 1936, faltavam cinco dias para começar o verão quando Jorge Mario Bergoglio nasceu. Era uma quinta-feira, 17 de dezembro.

 

Quando o seu Mário e a dona Regina viram o menino pela primeira vez, não esperavam que seria apenas o primeiro dos cinco que ainda estavam por vir. E nem faziam ideia que mais de 70 anos depois aquele menino chegaria aonde chegou.

 

Seu Mário era contador. Não de histórias, mas poderia ser. Italiano da região do Piemonte, deixou sua terra natal para encontrar a família que já morava do outro lado do mundo. Um dia, quando participava de uma Missa na Igreja de Santo Antônio, em Buenos Aires, conheceu dona Regina. Dona de casa, dividia o tempo entre cuidar da família e do lar. Não era italiana de nascimento, mas de descendência.


Viviam no coração geográfico de Buenos Aires No bairro de Flores, Jorge foi crescendo em uma casa simples, número 531 da rua Membrillar. Um mês depois de completar um ano ganhou de presente um irmão. A vida da família começou a ficar mais corrida. Seu Mário e dona Regina tinham praticamente dois bebês para cuidar. Entre trocar as fraldas, fazer comida e cuidar da casa, a rotina não era compatível com as horas do dia. Faltava tempo.


Aí entra dona Rosa na história, mãe do seu Mário, sogra da dona Regina, avó do Jorge. Ela morava perto, de modo que conseguia ajudar a família a cuidar das crianças. Como Jorge já estava grandinho, ela optou por levá-lo para casa enquanto o casal cuidava do bebê. E como na casa da vó e do vô sempre cabe mais um, o menino passava boa parte do dia por lá. Não falavam espanhol em casa, mas o dialeto do Piemonte, que Jorge foi aprendendo junto com as primeiras palavras.


Com o passar do tempo, entrou na escola primária, estudou e foi incentivado pelo pai a começar a trabalhar. Mas não foi em uma universidade, igreja ou laboratório, mas sim em uma fábrica de meias. Limpava banheiros, escritórios, galpões, até que foi promovido para a área administrativa, onde ajudava com a papelada. Chegou a idade de aprofundar os estudos, e Jorge escolheu Química.


Todas essas coisas foram contadas pelo papa a dois amigos: Francesca Ambrogetti e Sergio Rubin. Eles conversaram com ele ainda em Buenos Aires, antes do conclave que o elegeu papa. Conversa que originou a obra O Jesuíta, rebatizada depois do conclave com o título Papa Francisco - Conversas com Jorge Bergoglio.


Recentemente, ao escrever o prefácio do livro Agora façam suas perguntas, de Antonio Spadaro, Bergoglio confessou que em Buenos Aires tinha um pouco de medo de jornalistas. Pensava que poderiam colocá-lo em situações difíceis, por isso não dava entrevistas. Mas foi justamente Francesca Ambrogetti que o convenceu do contrário, mostrando o bem que poderia fazer ao expor seus pensamentos.

 

 


Rotina alterada


Era cinco e meia da manhã e Jorge já estava de pé. A vida de estudante técnico em Química não era fácil. Mal tomava café e já entrava no laboratório, seu novo emprego. Das 7 da manhã até uma da tarde ficava lá, vendo na prática o que aprendia nas aulas. Tinha pouco tempo para o almoço, pois a aula começava no início da tarde. E se engana quem pensa que às 6 da tarde já estava em casa para rezar o terço com os pais. A aula acabava oito da noite, e até chegar de volta ao bairro de Flores era uma longa jornada.


Embora a irmã de Jorge, Maria Helena, tenha contestado a informação em uma entrevista, a jornalista e escritora argentina Evangelina Himitian afirma no livro “A vida de Francisco- o papa do povo” que com 12 anos, apaixonou-se loucamente por Amalia Damonte, da mesma idade que a dele. Certa vez, Jorge teria dito a Amalia que se não casasse com ela se tornaria padre. E de fato parece que faltava apenas um estímulo para que a decisão fosse tomada.


Em um dia de folga, Jorge estava passeando com alguns amigos pelas ruas do bairro quando avistou a Igreja que frequentava. O tempo estava fechado, uma manhã diferente. Era o dia 21 de setembro e já se percebiam os primeiros sinais da primavera. Tinha aproximadamente dezessete anos. Jorge e seus colegas tinham saído para festejar o Dia do Estudante. O templo quadrado com uma torre e um relógio no meio fazia parte da rotina do jovem, que sendo católico praticante, frequentava a igreja portenha de San José de Flores. Mas naquele dia, sentiu uma vontade diferente. Precisava entrar na Igreja. Era como se algo o puxasse para dentro. Para isso, teve que se separar dos amigos.  Ao entrar na Igreja, andou pelo longo corredor até que avistou um padre. Mas era um padre que nunca tinha visto ali. Foi até o último confessionário, à esquerda e se confessou com ele.


Quando terminou, ao questionar o padre de onde era, ouviu que era de Corrientes, uma cidade distante mais de 900 quilômetros da Igreja de Flores, e estava morando num lar sacerdotal ali perto, de modo que conseguia ajudar na paróquia de vez em quando. O religioso estava doente, com leucemia. Morreu no outro ano.


Mas o que era para ser uma simples confissão mudou a vida de Jorge. O que o padre que veio de longe falou para o jovem não sabemos, nem os autores que nos ajudaram a entender tudo isso, nem seu Mário, nem dona Regina. Só Francisco sabe. Mas seja o que for, foi decisivo para que a vida dele mudasse radicalmente. Decidiu que tinha que ser padre. Jorge não esperou muito em contar aos pais a novidade.

Logo que voltou para casa, seu Mário e dona Regina ficaram sabendo. O pai aceitou tranquilamente. Dona Regina também, mas com um pouco mais de resistência, talvez por preocupação ou por ser o primogênito.

Aos poucos Jorge começou a deixar de lado os livros de Química e a dar mais atenção aos de Filosofia e Teologia. Ficava horas no quarto lendo. Dona Regina chamava para o jantar, mas muitas vezes ele não ia, ficava lendo.


Quando tinha cerca de vinte e um anos de idade, Jorge experimentou na carne um pouco dos sofrimentos de Jesus, pessoa a quem Jorge queria entregar a sua própria vida. Durante três dias ficou entre a vida e a morte. Com febre muito alta, Jorge abraça sua mãe e pergunta o que ele tinha de verdade. A mãe não sabia o que responder, pois também os médicos não tinham encontrado um diagnóstico, descreve os jornalistas Francesca Ambrogetti e Sergio Rubin, no terceiro capítulo do livro, Papa Francisco - conversas com Jorge Bergoglio.


Esta experiência é lembrada por Juan Carlos Scannone, professor de grego, literatura e latim de Bergoglio na época da doença. Ele recorda que houve uma espécie de peste, uma gripe e todos os seminaristas da Arquidiocese de Buenos Aires ficaram doentes. “Eu era professor tanto dos seminaristas menores como dos maiores que estudavam latim, entre eles estava Bergoglio. Complicou-se bastante a sua saúde, com uma pneumonia muito séria, teve que ser operado e lhe foi tirada parte de um dos pulmões”. O professor e teólogo Scannone influenciou a vida de Bergoglio com a Teologia do Povo e além do mais conviveu com o seminarista, o padre e o provincial Jorge Mario. Os bastidores para conseguir localizar e conseguir uma entrevista com o professor pode ser conhecidos por intermédio do Diário de Bordo.


O desejo de ser padre surgido naquela primavera de 1953, não o levou imediatamente a tomar uma decisão. Quatro anos se passaram antes de dar o primeiro passo. Aos 21 anos, entrou no seminário da arquidiocese, mas pouco tempo depois decidiu ir para a Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada no século XVI. O próprio papa em entrevista exclusiva dada ao padre jesuíta Antonio Spadaro descreve os motivos que o levaram a escolher a Companhia. “Da Companhia impressionaram-me três coisas: o espírito missionário, a comunidade e a disciplina. Isto é curioso, porque eu sou um indisciplinado nato, nato, nato. Mas a sua disciplina, o modo de organizar o tempo, impressionaram-me muito”.

 

“Da Companhia (de Jesus) impressionaram-me três coisas: o espírito missionário, a comunidade e a disciplina. Isto é curioso, porque eu sou um indisciplinado nato, nato, nato. Mas a sua disciplina, o modo de organizar o tempo, impressionaram-me muito”

Francisco, em entrevista a Antonio Spadaro

 


Jesuíta provado

 

Como jesuíta, seguiu o currículo normal de formação. Com exceção do Juniorado (etapa depois do noviciado dedicado ao estudo de humanidades) Jorge o fez no Chile, mas todos os outros estudos foram feitos na Argentina. Na juventude, queria ir às missões. Desejava ser missionário no Japão. Chegou a manifestar o sonho aos superiores, mas o grave problema da pneumonia surgido na juventude, foi o motivo para que o pedido não fosse aceito.

 

Pouco tempo depois de ser ordenado padre, com apenas 36 anos assumiu o maior cargo em nível local na Instituição, o de Superior Provincial da Companhia de Jesus na Argentina. Neste período, em que estava no cargo, entre os anos de 1973 a 1979, o país vivia o início da ditadura militar. A situação atingiu diretamente Bergoglio.

 

Quando Jorge Mario passou pelo Brasil contou ao padre jesuíta Luís González Quevedo, um velho amigo desde a década de 1970, no qual durante 22 anos mantiveram correspondências por meio de cartas. Bergoglio lhe falou que tinha jovens argentinos envolvidos na resistência armada contra o governo militar. E que dois padres jesuítas, que moravam em um bairro pobre, foram sequestrados. Também desabafou que ele estava sendo acusado de não os ter defendido e mais ainda, que ele seria o autor da denúncia. “Hoje, a história está esclarecida, mas ele nunca quis defender-se publicamente”, lembra o padre jesuíta.


Antes de terminar seu mandato como provincial, quando padre Bergoglio tinha 42 anos, fez seis meses de psicoterapia, com uma psicóloga judia. Em entrevista ao sociólogo francês Dominique Wolton, o religioso não revela o que o levou a começar as sessões e nem a identidade da psicanalista. “Por seis meses fui a ela uma vez por semana para jogar luz em algumas coisas, uma pessoa muito boa que me ajudou muito”, disse o papa em trecho no livro Papa Francisco: Encontros com Dominique Wolton - Política e Sociedade, publicado em setembro de 2017 e disponível nas livrarias da França.


Ao lembrar-se dessa época de superior na Companhia, o papa em entrevista ao padre Spadaro, afirmou que como jovem superior provincial foi autoritário e rápido em tomar decisões sozinho, chegando a ser acusado de ultraconservador. Pouco tempo depois de deixar o cargo de Provincial, em dezembro de 1979, Bergoglio padeceu de uma aguda inflamação da vesícula biliar (”colecistitis gangrenosa”), que poderia ter levado à morte. Mas ele precisaria percorrer muita estrada pela frente e a vida reservaria surpresas. Nisso a rápida intervenção de um jovem médico salvou-lhe a vida.

 


A favor e contra


Assim como geralmente acontece com qualquer pessoa que assume um cargo de governo, há os que admiram e outros que desaprovam. Bergoglio, o futuro papa também viveu esta experiência. Uns o prestigiavam, devido a sua personalidade, mas isso também não o poupou de sofrer incompreensões por parte de alguns. O velho amigo do papa, o padre Quevedo, lembra que os novos líderes da Província não viam com bons olhos a influência que continuava tendo em relação aos jovens jesuítas. Acabou sendo afastado do Colégio Máximo e tirado de Buenos Aires, sendo enviado em 1990 para Córdoba, como diretor espiritual e confessor na Igreja dos jesuítas na cidade. Foi como um ‘exílio’ vivido pelo atual papa, que o causou uma grande crise interior, segundo ele mesmo conta ao jornalista Antonio Spadaro.


No final da década de 70, termina o mandato de Superior Provincial e assumecomo reitor do Colégio Máximo e das Faculdades de Filosofia e Teologia de San Miguel. Nessa época o missionário brasileiro padre Claudio Ambrozio foi destinado a trabalhar na Argentina. Hoje pároco em Curitiba, recorda das duas vezes que foi reitor do seminário de Buenos Aires da Congregação Scalabriniana, ordem religiosa da qual faz parte. “Na época, os nossos teólogos estudavam na faculdade dos padres jesuítas, na qual o padre Bergoglio era antes professor, e, na segunda vez em que fui reitor, diretor”, recorda. Desta forma, os padres Jorge e Claudio se reuniam frequentemente para avaliar os alunos, o currículo escolar e o andamento da faculdade. Lembrando dos encontros, padre Claudio destaca que além da simplicidade e da acolhida que, segundo ele, sempre foram características de Bergoglio, a capacidade de discernimento também pode ser considerada uma marca pessoal de Francisco.


 

 

Encontramos o padre Bruno por acaso. Por indicação de outro entrevistado, descobrimos que ele acabara de ser ordenado padre jesuíta e que tinha trabalhado por três anos na Rádio Vaticano. Fomos conversar com ele. Nos bancos do santuário de Santa Paulina, em Santa Catarina, ele recordou que Bergoglio estava em Córdoba quando recebeu a nomeação para ser bispo-auxiliar de Buenos Aires. “O papa Francisco foi nomeado bispo quando ele estava trabalhando num galinheiro, no quintal de Córdoba, na Argentina, como um jesuíta normal, comum. Então ser um homem da simplicidade não é um esforço para ele, não é um discurso, ele precisa se aproximar. Ele tem desejo, ele tem vontade de estar com as pessoas mais simples”.


 

Foi na primavera de 1953 que o jovem Bergoglio depois de uma confissão feita, relata ter recebido o perdão de Deus. Segundo os católicos essa seria uma experiência de misericórdia. Esse acontecimento marcou a vida do futuro papa. Tanto que o tema da misericórdia se faz muito presente no pontificado de Francisco devido também à proximidade que Bergoglio sempre teve do mundo dos pobres. A Teologia do Povo, corrente argentina da Teologia da Libertação e que lhe serviu de base para sua atividade pastoral, sobretudo como arcebispo de Buenos Aires, lhe mostrou a riqueza e a dimensão do Evangelho que se encontra na piedade popular. “Compreender essa piedade e seus valores evangélicos é aproximar-se desse mundo não pelo viés das normas e da condenação, mas segundo o Espírito que as rege. Compreender a realidade dos casais em segunda união, por exemplo, no meio dos pobres, é também compreender que a vida nem sempre responde à lógica das normas”, explica o doutor em Filosofia, mestre em Teologia e Professor do Programa de Estudos Pós-graduados da Faculdade Teologia da PUCSP, Edelcio Ottaviani.


A atitude que o pontífice demonstra de escuta ativa, ao mostrar que quando conversa com alguém não existe mais ninguém no mundo, não é uma atitude adquirida depois de papa, mas que é algo comum desde padre. A jornalista argentina Gloria Batalla, há mais de 20 anos realiza a tarefa pastoral na transmissão da Santa Missa, que é transmitida pela Televisión Pública Argentina, no Canal 7.

 

Conta que, anualmente, faziam uma confraternização de fim de ano e que o padre Jorge os acompanhava e que sabia o nome de todos. Se alguma vez tinha conversado com alguém, e ao se reencontrar ele perguntava sobre os assuntos da última conversa e o que tinha acontecido depois. “Padre Jorge é um ser especial, de uma memória extraordinária. Nos tempos em que a economia não andava muito bem, muitas vezes pedia desculpas por não poder dar melhores salários”. E gostava de oferecer na Cúria um lanche para comemorar o Dia do Jornalista. Fazia questão de servir, enquanto conversava com os presentes. “Apesar da personalidade austera, era um homem alegre, quando entrava em confiança”, acrescenta a jornalista.

 


 

Sempre mudou para melhor


De estatura média, saúde frágil, magra, a religiosa colombiana Bernarda Cadavid nutre uma paixão pelo povo e pela América Latina. Teve contato com algumas pessoas que conheceram de perto Francisco e comenta que todos os cargos que ele ia assumindo dentro da Igreja, era motivo de mudança para melhor. Quando era sacerdote era de um jeito, quando ficou superior era de outro modo. Quando ficou bispo e arcebispo também mudou. E sendo papa aconteceu também uma transformação positiva, pois antes era silencioso e não sorria tanto como agora.


De acordo com a religiosa, para Bergoglio prevalecia o amor aos pobres e aos excluídos da sociedade, prova disso é que nos fins de semana visitava uma casa que recolhia jovens dependentes químicos que antes se encontravam em situação de rua.


Conforme o ditado popular, se você quiser conhecer uma pessoa pergunte para quem convive com ela no dia a dia. E assim aconteceu. Federico Wals não imaginava que a participação do seu chefe e amigo, o cardeal Bergoglio no conclave de 2013 seria o fim de uma relação de trabalho. Jornalista do setor de Imprensa no arcebispado de Buenos Aires trabalhou com o atual papa de 2007 a 2013, durante seis anos. Recorda que tinha um contato cotidiano e permanente. Bergoglio não era só um chefe, mas alguém que estava trabalhando junto, compartilhando projetos, e que o tornava partícipe nas decisões. Ao ser perguntado se Bergoglio era diferente do atual papa, Federico sorri e diz que não, a personalidade, a essência continua a mesma, permanecendo o mesmo padre Jorge. O sorriso que hoje espalha aos fiéis, os jovens e as pessoas que participavam das missas também já o tinham visto, um sorriso que brota de dentro, afirma Federico.

Ao lembrar-se das características do seu antigo patrão, Federico enumera algumas, tais como: simplicidade e austeridade, a liderança por intermédio do próprio exemplo, a escuta, a observação, a capacidade de colocar-se no lugar do outro e a preocupação constante com o próximo.  “Era um pai e um pastor, que estava envolvido no dia a dia da Igreja de Buenos Aires, e não se cansava de caminhar, era um bispo e um cardeal que não fazia diferença com os demais; não fazia muros, senão pelo contrário, estava permanentemente construindo pontes para que uns se aproximassem dos outros, se considerava um cidadão comum. Era um sacerdote caminhando pela cidade, e isso ficou marcado nas fotos que tiraram dele no metrô, nos hospitais, nas periferias, caminhando por Buenos Aires, tomando mate, conversando com as pessoas”.

 

 

 

 

 “Era um pai e um pastor, que estava envolvido no dia a dia da Igreja de Buenos Aires, e não se cansava de caminhar, era um bispo e um cardeal que não fazia diferença com os demais."

Federico Wals, assessor de Bergoglio de 2007 a 2013


 


Federico acompanha uma entrevista do cardeal Bergoglio para a Crónica TV, no pátio da Cúria em Buenos Aires. Uma das poucas entrevistas que deu.

Crédito: Arquivo Federico Wals

 

“Ele não esnobava da sua ação social, sempre manteve uma ação muito forte nas favelas portenhas e nos bairros pobres portenhos ajudando os setores empobrecidos da sociedade”, diz Ariel Palácios, jornalista argentino e correspondente da Globo News na Argentina ao recordar a atuação de Bergoglio na capital portenha. Não esconde que ficou surpreso com a eleição de seu conterrâneo, e considerou o discurso inicial de Francisco com um tom descontraído, com certo toque irônico, e nos discursos dos dias seguintes, viu que Francisco era uma figura com os pés no chão. Falava de uma forma normal, a primeira impressão que teve foi muito positiva.

 


 

 

 

 

Apesar da forte atuação social, Palácios afirma que os portenhos sabiam muito pouco sobre Bergoglio. Com um perfil discreto e o fato de não aparecer tanto na mídia, fazia com que “poucos setores da população sabiam exatamente qual tinha sido o papel dele social nos bairros pobres de Buenos Aires. O que mais as pessoas recordavam era o confronto político que ele teve com o casal Kirshner ao longo de vários anos”, comenta o correspondente internacional.

 

 

 

“Ele não esnobava da sua ação social, sempre manteve uma ação muito forte nas favelas portenhas e nos bairros pobres portenhos ajudando os setores empobrecidos da sociedade” 

Ariel Palácios, correspondente da GloboNews na Argentina


 

Mas se os argentinos não perceberam, uma visitante sentiu algo diferente. Em março de 2012, aproximadamente um ano antes da eleição, a Superiora Geral da Congregação das Irmãs Paulinas, Irmã Maria Antonieta Bruscatto, visitou o cardeal Bergoglio e após uma hora de conversa, percebeu que ele tinha perfil para ser papa.

Percebe-se o quanto a eleição de Francisco pegou de surpresa seus conterrâneos e o mundo. Mas parece que impressionar faz parte do estilo de ser de Francisco. Continua surpreendendo o mundo com atitudes humanas, simples e humildes


 

Ele chegou carregando a própria mala


Papa Francisco também surpreende ao iniciar em 2014, seu retiro fora do Vaticano. Primeiro jesuíta a ser papa e segundo a tradição da ordem que fez os seus votos, não se faz retiro no local onde se vive e se trabalha. Por conta disso, os Exercícios Espirituais foram realizados na casa Divino Mestre, dos Padres e Irmãos Paulinos, às margens do lago Albano, a 40 quilômetros de Roma. O responsável pela casa de retiros, Padre Mario Sobreajunite, é natural das Filipinas e ao ser convidado a enviar um vídeo relatando as impressões a respeito do seu principal hóspede, de forma rápida dá um retorno, demonstrando assim o entusiasmo de compartilhar as experiências vividas nestes quatro anos em que a casa acolhe o papa Francisco e toda a Cúria Romana para dias de silêncio e oração pessoal.


“Tocou-me o jeito que ele cumprimenta: olha bem nos seus olhos, aperta firmemente a sua mão e dá um belo sorriso” 

 Padre Mario Sobreajunite, diretor da Casa onde o papa faz retiro


Ele ficou impressionado durante os cinco dias de retiro com a humanidade de Francisco. “Um fato que me impressionou foi quando estávamos, o superior geral, membros da Família Paulina e toda a comunidade, no portão de entrada, o Santo Padre, com todos os assistentes que ele poderia ter, veio carregando a sua mala e, então, entrando, cumprimentou a cada um. Tocou-me o jeito que ele cumprimenta: olha bem nos seus olhos, aperta firmemente a sua mão e dá um belo sorriso. Imediatamente a gente se sente tão próximo dele. Impressiona a atitude de sua posição como autoridade. E a primeira coisa que faz, logo depois de cumprimentar, vai logo para a capela. Fica-se encantado com a simplicidade deste homem”.   

 

 

 

O jeito de ser de Francisco também ficou registrado na memória dos brasileiros em 2013, quando papa Francisco esteve no Brasil, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. O cardeal dom Orani Tempesta, responsável pelo evento, esteve ao lado do papa em quase todos os momentos e revela o quanto o Francisco é humano, sensível e próximo.

 

 

 

 

Dom Orani Tempesta, no momento da recepção do pontífice na primeira viagem apostólica, que foi ao Brasil, nos dias 22 a 28 de julho de 2013, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Crédito: L’Osservatore Romano

 

 

 

 

Parece que quando Bergoglio faz um plano, Deus muda. Assim como aconteceu quando ia sair para comemorar o Dia do Estudante e sentiu-se conduzido a entrar na Igreja, sua vida não está mais em suas mãos. Antes da sua eleição como pontífice, Bergoglio já preparava sua renúncia ao arcebispado de Buenos Aires. Tinha até escolhido uma casa de padres idosos para morar o resto de sua vida. Mas os seus planos mais uma vez foram alterados por uma força maior. “A habitação ficava na planta baixa de um sobrado. Ele brincou que não escolheu o piso superior porque não queria ficar acima de ninguém”, revela o amigo Quevedo.


Nota-se que Francisco não perdeu o bom humor e muito menos a humanidade. Quando era cardeal de Buenos Aires tinha o seu time do coração: o San Lorenzo. Além de torcedor, Bergoglio também possui carteira de sócio honorário do clube. Fundado em 1908, no bairro de Almagro - Buenos Aires, o San Lorenzo começou por iniciativa de um grupo de jovens com o incentivo de um padre, chamado Lorenzo Massa, cujo nome foi dado ao clube. Quando pequeno, Jorge Mario era levado pela mão de seu pai para assistir ao vivo aos jogos do time.


A escritora Fulvia Degl’Innocenti escreve no livro O papa para pequenos e grandes, que, além do futebol, o atual papa aprecia uma boa música. Seu compositor preferido é Beethoven. Quando jovem, dançou tango, sua dança predileta e também dança típica da Argentina. Além do mais, sempre gostou de ler. Suas obras favoritas são duas obras primas italianas: A Divina Comédia e Os Noivos. Um dos seus filmes prediletos é A festa de Babette, produção franco-dinamarquesa de 1987, dirigida por Gabriel Axel. No filme se vê um caso típico de proibições exageradas vividas pelas protagonistas. Quando se faz a experiência da liberdade, de esbanjamento em um jantar, todos acabam transformados.

 

 

 

 

 

 
 
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