Reportagens

A ponte entre as religiões

 

 

 

O ecumenismo e o diálogo inter-religioso como uma forma de praticar a construção da paz no mundo

 

Vinícius Costa Pinto


Quando o radical Logos encontrou o prefixo Dia. Então ficou o não dito pelo dito na Grécia Antiga. O primeiro significa “palavra” ou “expressão”. O segundo, que na realidade vem antes, significa exatamente o contrário: “aquilo que é avesso”Os pares então criaram o tal do diálogo: trocar uma palavra com o avesso. Sentar para conversar, discutir e chegar a um acordo. Dialogar.


Viajou do grego até o latim dos romanos, que inclusive não se davam muito bem não, mas tinham costumes e algumas crenças em comum. Como a religião. É, pelo visto o diálogo dialogou muito até chegar em 25 de dezembro de 1961. Dia em que o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, inaugurado quase um ano depois, em outubro de 1962.


O Concílio Vaticano II propunha uma abertura da Igreja Católica Apostólica Romana, e incluía como uma das maneiras para esta abertura o ecumenismo, que é a conversa com as religiões cristãs. Também o diálogo inter-religioso, que constrói debates com religiões não-cristãs.


Trazendo para uma questão pessoal, a professora de Ensino Religioso pela Pontifícia Universidade Católica (PUCPR), Edile Fracaro Rodrigues, acredita que termos como "tolerância" ou "intolerância" já carregam preconceitos. Para ela, Francisco traz ao diálogo o acolhimento e a solidariedade. “Em meio a tantos conflitos e a dificuldade de dialogar, papa Francisco traz então para esta atualidade a questão do diálogo. Quando ele estabelece esta acolhida, ele está dizendo que é possível que pessoas que pensam e creem diferentemente, sentem para conversar”, exemplifica.

 


 

Para pôr em prática a proposta de uma Igreja Missionária em Saída, é necessário uma abertura. “Realizar isto através da escuta, da humildade, do diálogo com outras religiões, com todos aqueles que estão dispostos a construir um mundo melhor”. Aponta padre Alexandre Awi Mello, que é secretário de um novo Dicastério fundado pelo papa.

Os documentos que formam o conjunto do Concílio Vaticano II.

 


Papado e abertura


Em seu primeiro ano como papa, Francisco já anunciava sua postura como líder mundial a partir de uma diplomacia religiosa por meio do ecumenismo e o diálogo inter-religioso. O Sumo Pontífice reuniu representantes de outras religiões. Deu maior atenção ao Pontifício Conselho do Diálogo Inter-religioso, e com a exortação Evangelii Gaudium, afirmou que o diálogo é uma condição para a paz no mundo, consequentemente um dever para os cristãos.


O ecumenismo, outro substantivo deixado pelos gregos e transformado pelo latim romano para o mundo ocidental, vem do oikos que é casa. Mas neste sentido não é uma casa qualquer, não. É a casa de todos. O ecumenismo, em seu sentido lato significa mundo.


Apesar de representar o mundo semanticamente, o conceito só vai abranger o diálogo entre as religiões cristãs depois da Reforma Protestante. Cristãos Primitivos, Católicos Apostólicos Romanos, Protestantes, Calvinistas, Anglicanos e Neopentecostais.


Já o diálogo inter-religioso diz respeito à discussão diplomática com outras religiões de caráter confessional não-cristão. Como por exemplo, Judaísmo, Islamismo, Hinduísmo. E aqui no Brasil as religiões de matriz africanas, como a Umbanda e o Candomblé, que apesar de não serem cristãs, mantêm fortes relações devido ao sincretismo religioso.


De acordo com o Censo de 2010, a população brasileira é formada por 65,0 % de católicos, 13,4% de evangélicos pentecostais ou neopentecostais, 8,0% sem religião, 4,9 % de evangélicos não determinados, 4,1% de evangélicos de missão (presbiterianos; metodistas e batistas, por exemplo), 2,7% de outras religiosidades, 2,0% de espíritas e pouca percentagem entre umbandistas e candomblecistas.


Vinde e ide 

 


“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”

João 3,16

 

 

Parafraseando este versículo, Dom Naudal Gomes, Bispo da Diocese Anglicana Episcopal de Curitiba, iniciou a conversa sobre as ações de Líder Mundial e o entusiasmo de papa Francisco sobre o diálogo. “Porque a Igreja sempre foi convidada a ir. Só que em diferentes momentos de sua história ela tem errado ou focado em outros aspectos. Eu vejo que o chamamento que o papa está fazendo hoje resgata uma tradição cristã e uma teologia cristã, do sentido da existência da Igreja”. Explica Dom Naudal, que acredita que o fundamentalismo é contrário ao evangelho e impede o diálogo ao criar “clubes de salvação”. Papa Francisco retorna ao Evangelho quando propõem duas ações, o diálogo e a Igreja em saída. Duas ações que conversam entre si. Como exemplo de Ecumenismo praticado, Dom Naudal cita a Pastoral do Povo da Rua, que é uma Pastoral, de denominação católica, mas que exerce suas atividades na Igreja Anglicana.


 

 

Que a paz esteja sobre vós, irmão


Costumeiro ditado popular para marcar a passagem de tempo “Papo vai. Papo vem” para ter se esquecido de que o papo também volta. E voltou mesmo. Desta vez para as próprias origens abraâmicas — Igrejas monoteístas surgidas no Oriente Médio e tem Abraão com seu fundador ou possuem forte relação com ele.


Não existe mais o outro que atravessa seu caminho. E entre todas as 99 palavras que “Islam” significa, paz é uma delas: “Esquecer o passado e construir novas pontes. Onde você possa ter paz, amor. Dialogar com seu irmão de igual para igual. É esse o pressuposto de Papa Francisco. Acredito que a sua mensagem traz isso. Uma releitura da História em seu diálogo religioso”. Contextualiza Gamal Oumairi, da Mesquita de Curitiba. Porque antigas feridas como as Cruzadas — Conjunto de conflitos nos quais tropas cristãs foram enviadas à Jerusalém para retomar a Terra Santa e reafirmar a homogeneidade cristã no mundo, durante os anos de 1095 a 1291 — ressurgem a cada dia.



“Esquecer o passado e construir novas pontes”

Gamal Oumairi

 


Em 1995 o Massacre de Srebrenica, deixou 2.000 bósnios muçulmanos mortos pelo Exército Bósnio da Sérvia. Entre brigas por territórios a guerra religiosa também era um dos motivos daquilo que veio a ser o maior genocídio da História depois do Holocausto. Atualmente, as forças do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, dissidentes da Al Quaeda, reivindicam autoridade religiosa nos países do Levante: Palestina; Jordânia; Líbano; Chipre; Hatay e Turquia.  Esta autoridade não é reconhecida internacionalmente e nem pelos muçulmanos islâmicos. “Porque no final das contas quem mais sofre com o extremismo do Estado Islâmico são os próprios muçulmanos que são as maiores vítimas. Os muçulmanos não compactuam com o Estado Islâmico”. Complementa Oumairi, sobre ação nos países do Levante.

 

 


Internalizando para o plural


Porém, um dos caminhos mais difíceis a serem percorridos pelo diálogo é sua própria internalização nas comunidades religiosas. Quando os líderes religiosos se encontram para realizar o diálogo, sobretudo, realizam papel diplomático e político e sabem que suas palavras podem ressoar de maneira negativa ou positiva. Mas quando se faz parte de uma comunidade, e suas palavras não tem a dimensão de a de um líder, as pessoas buscam a compreensão do outro.

 

Para Sylvio Fausto Gil, 1º vice-presidente da Associação Inter Religiosa de Educação (Assintec), e praticante da Fé Bahaí, Igreja de raiz islâmica originada no Império Otomano durante o século XIX, a dificuldade é a internalização. “Embora o líder religioso possa ser aberto ao diálogo, pode ser que os seguidores daquela religião não o sejam. Se ele não fizer um diálogo interno nas suas comunidades dificilmente aquela ação em nível político e estrutural vai atingir a pessoa comum, o seguidor, o crente. Então penso que as principais religiões do mundo têm sempre grupos abertos ao diálogo neste campo estrutural político, mas avançamos muito pouco internamente”. Para a garantia do pluralismo religioso, que está no campo da ação política e estrutural, mas também no campo moral.


“Embora o líder religioso possa ser aberto ao diálogo, pode ser que os seguidores daquela religião não o sejam”

Sylvio Fausto Gil

 

As soluções para a dimensão interna estão na base da própria educação religiosa que vise um pluralismo religioso e a educação das pessoas para a pluralidade religiosa na sociedade.


A Assintec possui como objetivo a educação não confessional — confessional é tudo aquilo que está ligado a uma confissão específica, sendo referente a todas as denominações religiosas em particular —, ou seja, sem ter uma opção doutrinária de base, nas Escolas do Estado e também como grupo atuante na área de diálogo Ecumênico e Inter-Religioso. Foi fundada há mais de 40 anos com o fim de se elevar o diálogo ecumênico — aquele que diz respeito somente às religiões cristãs. Incorporando posteriormente outras denominações sem raízes no cristianismo.


Assim como o encontro de Papa Francisco com o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa em 2016. Após uma cisão entre as duas religiões há mais de mil anos devido a motivos políticos entre Constantinopla e Roma.


Papa Francisco e o Patriarca Kirill, da Igreja Ortodoxa Russa, assinaram uma declaração com o objetivo de reaproximar as Igrejas pelo fim dos conflitos causados por esta cisão no Oriente Médio, e pelas relações entre católicos e ortodoxos. Na carta assinada, os dois se reconhecem como irmãos.


 
 
Outras
Reportagens
 
 
Copyright © Redes de Francisco. Todos os direitos reservados.